8 de março é um dia de resgate

Por Gabi Hoover


8 de março de 2021: Oi. Dá licença pra eu entrar aqui nesse dia “especial” pra chover no seu rolê. Você já se perguntou sobre por que do seu WhatsApp estar bombando de mensagens com flor e corações te dando parabéns?

“É pra comemorar o dia internacional da mulher.”

Mas comemoramos esse dia por que mesmo?


Pra não me alongar em um tema, que merece muito mais atenção do que a que realmente damos a ele, vou direto ao ponto: temos sim razões pra comemorar, pois se hoje votamos e temos direitos trabalhistas, muito se deve às mulheres.


Mas nada disso foi conquistado com flores. Foi graças ao movimento de mulheres operárias, que em razão da expansão industrial e das guerras passaram a ocupar lugar em chão de fábrica, que conseguimos melhores condições trabalhistas. Foi graças das mulheres, todas elas (intelectuais, operárias, donas de casa, e estudantes), que hoje temos o direito de votar e, assim, escolher as pessoas que nos representam nas esferas que decidem políticas e ações públicas.


Ou seja, se temos algo para ser comemorado hoje, dia 8 de março, esse algo é esse movimento de mulheres em busca de uma vida digna e de respeito.


Movimento este, minhas amigas, que ainda não parou.

Pois é. E agora, diante do cenário econômico e social no mundo, nós, mulheres, voltamos a arregaçar as mangas e, mais uma vez, temos nossos direitos questionados e ameaçados.


Então, ao invés de comemorar, prefiro refletir, e “pagar” meu respeito àquelas que morreram queimadas, pisadas, sufocadas, amarradas, machucadas, apedrejadas …. em todos os tempos da história da humanidade.




Pare pra pensar! … que seja por um minuto (aquele minuto de silêncio): a gente tá comemorando a morte de gente como a gente. Sacou?!


Uma questão de perspectiva


Eu tenho duas tias-avós que, nesse momento, em 2021, já passaram de 100 anos. Com uma delas, converso via chamada de video de vez em quando. Em um canto de sua casa, ainda fica o pedestal com um telefone preto analógico. O número desse telefone é um dos poucos que ainda lembro, assim como o da casa dos meus pais, das minhas avós, da tia Nezinha, e da mãe das Gordas. Todas as vezes que nos falamos, ela lá e eu aqui, na minha Nárnia*, viajo no tempo.


Tia Déia, como carinhosamente a chamamos, dedicou (dedica) a vida para sua família e a igreja católica. Casou-se mais velha, não teve filhos. Ela viajou pra Europa de navio. Até hoje, antes da refeição, gosta de dose de cachaça. Hoje em dia fala com seus sobrinhos e sobrinhos-netos como se estivesse conversando com a televisão.


Teve uma época que a Déia pegava no meu pé porque eu não parava com um namorado. Ela tinha medo que eu ficasse “falada” na cidade. E eu, por mais que respeitasse a preocupação dela, não estava muito preocupada com o que iriam falar. Daí, quando chegou meu casamento, Déia estava preocupada que eu entraria na igreja de branco e com um filho no colo, mas ficou aliviada quando viu que o vestido branco não era longo e nem tinha véu. Ela fez questão de me falar isso na saída da igreja.