#SomosBruxas

Por Amanda de Carvalho


Você já parou pra pensar que o Halloween, também conhecido como o Dia das Bruxas (31/10), tem um passado? Além de muitos elementos que se caracterizaram ao redor do mundo e ficaram conhecidos popularmente, tem a história por trás de um dos símbolos de "maior terror": a bruxa. Aquela velha conhecida por ter um chapéu pontudo, voar na vassoura, fazer magias, ter o nariz pontudo e ser ermitona.


O que trazemos nessa pauta não é comemorativo, tampouco celebrando o hollywoodiano. Trazemos uma nota de reflexão, pois quando se fala em Bruxa, automaticamente lembramos de que quem sofreu com a realidade desse termo, séculos atrás, foram nós, mulheres, e que até os dias atuais a "caça" é feita - de maneira muito subjetiva, que se você não souber interpretar, facilmente poderá ser podada de seus direitos, suas conquistas e sua liberdade.


A caça às bruxas aconteceu "como o grande evento responsável por aniquilar a participação, a força e a resistência feminina, que até então eram comuns nas comunidades praticamente do mundo inteiro" com mulheres curandeiras que praticavam o conhecimento medicinal das ervas, moravam isoladas ou ainda em companhia de outras mulheres, eram lavradoras, pedreiras, parteiras, ou simplesmente por serem solteiras.


Enquanto morriam na fogueira, morria junto toda sua autonomia sobre seus direitos, seus interesses, seus corpos, sua independência.


Por isso, quando falamos em Dia das Bruxas é olhar o outro lado da moeda, o real, é combater à opressão as mulheres que tanto sofreram anos atrás, mas que até hoje reflete em nosso presente. É ir em busca de conhecer a história na Idade Média, das barbáries cometidas sobre algo que existiu no imaginário das pessoas, quando o medo era dominante, e refletir se estamos mesmo longe de não sermos mais censuradas.


Não devemos esquecer do passado. Nossa luta ainda é constante e atente-se sempre que ao usar a palavra, sua definição socialmente vista ainda é negativa. Bruxa ainda fere se for mal compreendida, como reforça a escritora Silvia Federici:


"É uma coisa boa dizer: "Nós somos as descendentes das bruxas”. Porque essas mulheres eram vistas como bruxas. Ao dizer essa frase, estamos reconhecendo que temos que lutar para mudar isso. Temos que lutar para garantir que não sejamos queimadas de novo. Tentaram matar essas mulheres e sufocar essa luta, mas continuamos aqui. Agora dizer que sou uma bruxa... eu não sou uma bruxa. Porque a definição é muito negativa, é a da mulher má. Podemos brincar com a palavra, mas temos que ter muito cuidado para compreender a realidade, pois ela foi muito brutal para muitas mulheres".

ELA que também é uma especialista no assunto, filósofa contemporânea, professora e feminista autonomista italiana radicada nos Estados Unidos. Foi nos anos 1970 uma das pioneiras nas campanhas que reivindicavam salário para o trabalho doméstico das mulheres, que por muitas vezes, dispõem de seu tempo e abdicam de suas vidas por anos _ muito anos! _ para cuidar dos próximos.


Também tem fortes críticas ao Estado, mas o nosso interesse de hoje é ressaltar suas pesquisas que deram origem aos títulos de alguns de seus livros, o "Calibã e a Bruxa" (2017) e "Mulheres e caça às bruxas" (2019). Nesse último citado, Silvia Federici revisita os principais temas do Calibã e a Bruxa, e nos brinda com um livro que apresenta as raízes históricas dessas perseguições, que tiveram como alvo principalmente as mulheres.

Federici estrutura sua análise a partir do processo de cercamento e privatização de terras comunais e, examinando o ambiente e as motivações que produziram as primeiras acusações de bruxarias na Europa, relaciona essa forma de violência à ordem econômica e argumenta que marcas desse processo foram deixadas também nos valores sociais, por exemplo, no controle da sexualidade feminina e na representação negativa das mulheres na linguagem. A partir desse debate, a autora nos mostra como as acusações e a punição de "bruxas" se repete na atualidade, especialmente em países como Congo, Quênia, Gana e Nigéria, na África, e Índia*.


Silvia em sessão de autógrafos.


Estar presente, aqui e agora, pensando em nossos futuros, é não esquecer o passado mas fazer dele um aliado, para nos dar forças em combater muitas questões que nos lembre semelhanças de injustiças, desvalorização, controle, medo e desigualdade. Todos os dias são novos dias para impulsionarmos uma forte mobilização feminina.


O que trouxemos é uma nota de um assunto vasto e denso. Reflita, pesquise, leia, compartilhe.

A história e literatura andam lado a lado. A liberdade também.

Sejamos MEIO entre nós mesmas. De informação, de luta e de apoio.



Belíssima ilustração do artista italiano Marco Melgrati.

*Trecho retirado da descrição do livro pela editora Boitempo.

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