Mulher e mecânica: conheça Ana Paula Conceição

Por Ana Lara


No dia 20 de Novembro relembramos a Consciência Negra. A data é um momento de reflexão sobre a caminhada histórica e cultural da comunidade preta no nosso país. A Consciência Negra é uma forma de representar a luta diária contra a discriminação racial e a desigualdade social.


De carona com o momento de reflexão sobre o racismo, e para refletir sobre outras formas de exclusão, entre elas o machismo, fomos conversar (virtualmente, claro!) com a Ana Paula Conceição (foto abaixo) uma mulher negra, paulista, de 26 anos, que está mandando muito bem em um ambiente ainda dominado por homens: a oficina mecânica.


#ElasPilotam: Como surgiu o interesse em ser mecânica? Quantos anos você tinha? Conte um pouquinho da sua história!


Ana: O interesse em ser mecânica surgiu quando trabalhei no Johnnie Wash em 2015, era Bartender e ao conhecer o universo das motos custom me apaixonei. Na época eu tinha 21 anos. Depois de alguns meses, eu decidi sair do bar e procurar um emprego de mecânica, mesmo não sabendo nada sobre o assunto. Procurei no Google "oficina mecânica de motos" e na primeira que apareceu, eu perguntei ao dono via mensagem em rede social se poderia ir até a oficina conhecer. Quando eu cheguei lá, ele disse que oferecia cursos de mecânica e que eu poderia trabalhar na parte administrativa do estabelecimento e ele me daria os cursos enquanto eu estava lá.


Trabalhei por um ano nessa oficina, aprendi um pouco sobre ferramentas e sobre as motos. Conheci muitas pessoas desse universo que agregam muito na minha vida, mas ao chegar próximo de completar o primeiro ano, o dono me disse que eu não sabia nem segurar uma ferramenta direito então ele não iria me dar o curso que ele havia prometido no início do trabalho. Então eu fui demitida dessa oficina, de forma bem brusca infelizmente.


Mas não desisti. Consegui me matricular no curso de auxiliar de mecânica do Senai e comecei a estudar o “bê-a-bá” de mecânica.


Quando fiz os cursos no Senai eu era a única mulher do período e, pelo que o professor me falava, era também a única do curso inteiro.

Eu chegava na instituição era como se eu fosse um alienígena andando. Durante os cursos, os colegas e outros caras que eu não conhecia ficavam me olhando fazer as atividades (como montar câmbio, desmontar motor, etc) pra ver se eu ia fazer certo. Era uma cobrança nesse sentido falando, pois eu percebia que quando outros homens faziam as mesmas coisas e não eram tão observados.


A Ana também nos contou que passou por algumas oficinas que prometeram um emprego como mecânica, mas que acabavam enrolando e deixando seu trabalho apenas para o administrativo. Inclusive, ela acabou saindo de empresas conhecidas por não estar na função sonhada.



Ana: Eu tinha curso do Senai enquanto muitos mecânicos da oficina não tinham.

Tudo bem que nesse meio o curso não tem tanto valor quanto experiência e tempo de trabalho, pois na mecânica é muito mais prática que teoria. Resumindo eu não fui pra oficina, pois era mulher. Um amigo meu com o mesmo curso que eu entrou na oficina sem muito esforço. Eu perguntei pro meu gerente na época "por que os mecânicos que estão na oficina entraram lá sem precisar passar por essa parte administrativa e eu preciso?". Ele não respondia.


Após 4 anos do curso, eu finalmente consegui trabalhar na área. Passei por mais de 5 oficinas (sempre com a proposta de atendimento ao cliente e administrativo. E eu sempre saía porque queria mexer nas motos de fato). Foi incrível, me sinto todos os dias completa, feliz e satisfeita!


#ElasPilotam: Além de todo machismo, ser uma mulher negra teve algum peso nessa área? Se sim e se for confortável para você, pode nos contar um pouco como foi?


Ana: Sim! Então, quando eu ia trabalhar de cabelo natural (é bem cacheado e volumoso) recebia "brincadeiras" de várias pessoas. O dono de umas das oficinas que trabalhei dizia coisas horríveis em tom de brincadeira e diversas vezes me ofendeu com piadas preconceituosas e ofensivas. Ele também dizia que não queria modelos negras para tirar fotos com as motos porque era "nojento".


Eu acredito que o racismo ainda ocorre porque muita gente ainda não tem consciência de que elas praticam atos racistas ou porque as pessoas não acham estranho que aproximadamente 50% da população brasileira seja negra, e, ainda assim, não vemos essa mesma proporção em cargos liderança, ou entre as classes sociais mais altas. Por isso, a extrema importância da conscientização.


São pequenos comentários, pequenas “brincadeiras” que as pessoas continuam fazendo que acabam impactando sim, tanto na minha área de atuação, onde eu vi muita gente da minha cor ser subestimada, não ser levada a sério; assim como na minha vida pessoal também, como ser olhada esquisita, até porque tenho muita tatuagem e às vezes as pessoas, até mesmo da minha família, acham que eu não vou conseguir chegar a lugar nenhum por conta desse preconceito. Da minha família é mais o caso da tatuagem mesmo, porque grande parte é negra.



#ElasPilotam: Acha que isso afetou de alguma forma a pessoa que você é hoje?


Ana: Acho que isso afeta sim a forma que eu sou hoje. Quando eu era pequena, antes de estudar em escola pública, estudava em escola particular e eu era a única negra na sala, onde a professora chegou a me chamar de macaca. Eu estava na quarta série e é uma coisa que eu não esqueci até hoje.


Andar de cabelo natural, as pessoas sempre, sempre me zoaram muito por conta disso...Formato do meu nariz… Então acho que sim, impacta a forma que eu sou hoje, mas pra melhor, entendeu? Porque eu consigo já identificar alguns tipos de comportamentos e já me blindar e me conscientizar de muita coisa. A gente as vezes acaba falando, por exemplo, a expressão “judiar” que vem de judeu, de toda a história que eles passaram, e eu também não faço mais esse tipo de coisa porque sem querer tá tudo meio relacionado, né? Mas sim, afeta a pessoa que eu sou.


#ElasPilotam: E na área que você atua?

Hoje em dia, que eu trabalho na área, eu estou trabalhando especificamente em uma oficina muito, muito, muito boa. Eu tive três experiências na minha vida e queria até ressaltar isso: foram em três locais de trabalho que me trataram com igualdade, sem racismo ou machismo. Inclusive nessa que estou agora, a FreeHand, que eu não me sinto diferente, que me sinto segura até pra dar essa entrevista pra você e falar que sou mecânica por conta do apoio no meu trabalho.



#ElasPilotam: Ana, qual mensagem você deixa para as meninas que possuem o sonho como o seu?


Ana:

Não importa quão difícil parece que seja, temos mulheres para nos inspirar, apoiar, além de amigos e família que sempre nos incentivam. É um trabalho gratificante e fazer o que se ama não tem preço.

Todos os dias acordo com a felicidade de saber que estou indo ocupar um espaço que não estamos acostumados a ver numa sociedade machista, e sinto que represento nosso gênero.

Apesar das adversidades, não estamos sozinhas.

E que história inspiradora. Obrigada Ana por nos dedicar um pouco do seu tempo e compartilhar sua carreira aqui no #ElasPilotam. Que mais e mais mulheres possam ocupar espaços, sejam eles quais forem. E que a cor da pele não impeça de nada.


Eu, que também me chamo Ana, sendo uma mulher parda de pele clara, não posso deixar de refletir sobre meus privilégios e em como fazer deles um instrumento de impulsionamento para mulheres negras terem mais voz e presença sempre.


E para conhecer e fortalecer o trabalho da Ana Paula confiram o Instagram dela no perfil: @anamecanica_


Até a próxima 🌷.



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