Elas Pilotam a Transamazônica

Por Rayana Schneider

Fotos: Arquivo Pessoal


Meu nome é Rayana, nasci em Nova Venécia, no Espírito Santo (ES), tenho 35 anos e atuo como professora na área de engenharia elétrica. Certa vez li que “nós nunca deixamos de ser criança, o que muda é o tamanho dos nossos brinquedos” e deve ser verdade. Desde criança sempre me aventurei em duas rodas. Andava de bike a tarde inteira depois que chegava da escola e hoje, sempre que posso, viajo de moto. Eu cresci e o brinquedo também! (risos)


A primeira moto que tive foi uma Fazer 250 cilindradas, da Yamaha. Comprei ela em 2013 e andava mais na cidade mesmo. De vez em quando, fazia pequenas viagens próximas à cidade onde eu morava, no máximo 100 km (considerando apenas o trecho de ida).


Em 2015, comprei uma MT 07, uma naked, com quase 700 cilindradas, também da Yamaha. Com ela, comecei a fazer viagens maiores. No início, ia apenas para eventos de motociclistas no ES ou em estados vizinhos, como Bahia e Minas Gerais.

(na foto acima, chegando em Brasília)


Foi uma época muito bacana em que conheci muitas pessoas e lugares diferentes. As viagens eram para cidades há cerca de 400 km de onde eu morava e na maioria das vezes eu viajava sozinha. Geralmente minhas datas e horários de saída não batiam com os dos grupos de motociclistas que também viajariam, então eu ia sozinha mesmo.

Até hoje digo quando me perguntam se eu estou viajando sozinha, que “sozinha a gente nunca está”.

Com o tempo, minha vontade de andar de moto e conhecer mais lugares foi aumentando e eu passei a planejar passeios mais longos.


A primeira viagem longa que fiz foi em janeiro de 2017 com a MT 07. Nessa viagem eu saí de Nova Venécia-ES, fui até Brasília-DF, de lá fui até Foz do Iguaçu-PR para conhecer Itaipu e retornei para o ES. Meu desejo era conhecer a capital do país e uma das maiores hidrelétricas do planeta - afinal de contas, sou engenheira eletricista. Foi uma viagem incrível onde percorri 5.150 km em 15 dias e fiz muitos amigos ao longo do caminho. Essa viagem foi até matéria para a revista Moto Adventure e em alguns sites ( https://redenoticia.es/a-forca-da-mulher-sobre-duas-rodas/)


Fiz minha segunda viagem longa em julho de 2017 para ir no Motocapital em Brasília e para conhecer as praias do nordeste. Fui com a MT 07 também. Saí de Nova Venécia-ES, fui até Brasília-DF, subi para os Lençóis Maranhenses e fui descendo pelo litoral até chegar no ES de novo. Foram 6.500 km e 21 dias de viagem. Nessa viagem minha garganta inflamou no meio do caminho e eu aprendi algo muito importante: alimentação é essencial e não deve ser negligenciada. Eu concluí a trip, mas não conheci nada do Rio Grande do Norte para baixo. Só passei. (olha aí a desculpa para voltar, né?! rs).


Alguns dos roteiros descritos estão nas imagens abaixo, gentilmente cedidas pela Rayana.


A terceira viagem longa foi para conhecer a famosa Serra do Rio do Rastro (segunda imagem acima) em Santa Catarina. Fiz essa viagem em janeiro de 2019 com a MT 07. Saí de Brasília-DF, fui até a Serra do Rio do Rastro-SC, subi para Nova Venécia-ES e retornei para Brasília-DF, pois morava lá. Foi uma viagem maravilhosa que durou 20 dias e onde percorri cerca de 5.250 km.


Nessas três viagens as estradas eram todas asfaltadas. Cheguei a pegar alguns trechos de estrada de chão, mas bem poucos. O mais desafiador, até então, foi um trecho de piçarra que peguei no nordeste em 2017. Sofri, mas passei!


Em 2019, comecei a querer uma moto com suspensões melhores e que pudesse ir para qualquer lugar (asfalto ou terra).

A MT 07 é uma moto sensacional, forte, leve, econômica e tem um motor com torque o tempo inteiro. Incrível! Mas as suspensões de uma naked não nos ajudam no nosso país - onde muitas vezes tem mais remendos no asfalto que asfalto mesmo!

Se você precisar ir para uma estrada de chão é sofrido também. Então, eu comecei a olhar para as trails e em julho de 2019 troquei a MT 07 por uma Tiger 800 XRX, da Triumph.




Eu estava morando em Brasília-DF e fiz muitas viagens médias na região Centro Oeste do Brasil com a Tiger, seja para ir em eventos de moto ou para conhecer pontos turísticos. Viajei de moto para Bonito-MS, Correntina-BA, Minaçu-GO, Barra do Garças-MT, dentre outros lugares. Descobri que as suspensões e a bolha das trails são muito úteis numa viagem! Acho que não volto mais para as nakeds….rs…


Com a Tiger eu me aventurei um pouco mais no off road também e comecei a querer conhecer a única região do país que eu ainda não tinha ido: o Norte!


Em setembro deste ano, 2021, eu viajei para o Norte do país para conhecer Alter do Chão-PA, que já foi eleita a praia de água doce mais bonita do mundo, e para estar na maior floresta tropical do planeta: a amazônia!


A rota total

Essa viagem seria muito maior que as anteriores e muito mais difícil também. Oficialmente, a BR 230, conhecida como a transamazônica, inicia em Cabedelo-PB e termina em Lábrea-AM, com seus quase 4.250 km de extensão. Desses 4.250 km, pouco mais de 1.500 km são de estrada de chão! Para mim, a transamazônica real começa a partir de Marabá-PA, pois é dali que entramos no bioma Amazônia e que os trechos desafiadores de estrada de chão aparecem.


Planejei sair de São Mateus - ES e ir até Alter do chão-PA. Lá eu encontraria um amigo meu, o Jabá, e seguiríamos pela transamazônica até Lábrea-AM. De Lábrea-AM eu retornaria para o ES. Eu entraria na BR 230 em Balsas-MA, antes de Marabá-PA, e percorreria todo o trecho de estrada de chão da transamazônica. O trajeto da viagem pode ser visto na imagem abaixo.


O trajeto planejado para a viagem. O trecho da BR 230 está destacado em vermelho.


Sobre planejar uma viagem desse porte

Quando planejo o quanto irei andar em um dia eu não considero a quantidade de kms que rodarei, mas sim o tempo que gastarei. Eu coloco no Google de onde sairei e até onde irei considerando, no máximo, 9 ou 10 horas de viagem (gerado pelo Google), dependendo do quanto quero rodar naquele dia.


Por exemplo, se a ideia é ir mais devagar, planejo cerca de 6h de viagem no dia. Minha moto tem uma autonomia de 430 km, então planejo paradas entre 250 e 300 km para abastecer. Gosto de parar entre 2 e 2,5h esticar as pernas e tomar um café. Nem sempre as paradas para um café e o abastecimento coincidem. Na tabela 1 é possível observar como planejei o primeiro dia de viagem. Os asteriscos marcam onde abasteci.

Alimentação

Parece que não, mas é importante a alimentação, pois a imunidade precisa estar em alta. Conheço pessoas que não almoçam na viagem, mas lancham e jantam bem à noite. Pelo menos uma refeição completa é importante manter diariamente. No almoço eu como pouco, para não dar sono. Um pouco de arroz, feijão, carne e muita salada. À noite como mais. Barras de Whey são uma ideia prática para levar na mochila e lanchar de vez em quando.


Segurança

Raramente viajo de noite, apenas em casos extremos. Costumo programar minha saida para às 7h e paro 17h mais ou menos. De noite a chance de atropelar um animal ou cair em um buraco é muito maior, pois a visibilidade fica bem limitada. Além disso, se acontecer qualquer problema, a chance de obter ajuda é menor. Paro de rodar quando está anoitecendo, abasteço a moto no posto da cidade e aproveito para pedir informações, no posto mesmo, sobre hostel/hotel/pousada para ficar e conhecer um pouco das pessoas locais.


Prefiro parar em cidades pequenas para dormir ou abastecer, pois é mais fácil achar o hotel/pousada/hostel e entrar/sair da cidade. Se eu precisar passar em uma grande cidade, me programo para abastecer em alguma cidade bem antes do entorno para não precisar parar na cidade grande, onde acredito que o risco de ser assaltada, por exemplo, é maior.



Mecânica

Semanas antes da viagem, fiz a revisão completa da moto na oficina e coloquei um par de pneus Michelin Anakee que são 80% para asfalto e 20% para terra. Sobre ferramentas, eu nunca fui de levar muita coisa: sei trocar o óleo, o filtro, retirar carenagens e conheço um pouco da moto, mas dependendo do problema mecânico certamente eu teria que levar a moto em uma oficina.


Então, eu nunca fui de levar muita coisa. Sinceramente, nem se eu tivesse uma moto menor e simples eu carregaria muita ferramenta. Primeiro: sempre aparece alguém para te ajudar. Segundo: mesmo sabendo muito de mecânica, consertar a moto no meio “do nada” sem as ferramentas de uma oficina, é para poucos. Terceiro: é bom levar o mínimo na moto (não temos muito espaço e pouco peso é sempre melhor).



Basicamente, levo um spray para o caso do pneu furar, um jogo de chave Allen e um kit da Gedore. Eu imaginei que eu precisaria retirar o paralama e a capa corrente caso pegasse lama e essas ferramentas simples que citei me permitiam fazer isso. Acrescentei mais um kit para o caso do pneu furar (o famoso “macarrão”) também. Por fim, acrescentei um “calibrador tipo caneta”, pois eu andaria muito no asfalto e de repente entraria na estrada de chão, então seria necessário murchar os pneus. Essas foram as ferramentas que levei.



Roupas

Eu costumo levar poucas roupas também. Uso muito blusas tipo segunda pele, pois são fáceis de lavar, secam rápido e ocupam pouco espaço na mochila. Recomendo levar um par de luvas e uma bota na mochila para o caso de pegar uma chuva e encharcar a luva e a bota num dia de viagem. Pelo menos, no dia seguinte de viagem, você sairá de moto com a mão e os pés secos.



A viagem

Tudo pronto e eu parti. Sintetizei os dias de viagem e as observações nas tabelas abaixo.




Nos primeiros 4 dias eu andei bastante, pois queria chegar logo no Pará. Peguei um trecho de estrada de chão muito ruim no PI e perdi um parafuso da bolha devido a trepidação. Retirei a bolha no quarto dia de viagem, com as ferramentas que levei e murchei os pneus. Coloquei 25 no pneu dianteiro e 22 no traseiro.


Encontrei com o Jabá depois de Uruará e viajamos juntos até Alter do Chão em uma estrada com muitas poacas - uma espécie de “poça de pó acumulado” que faz a moto oscilar como se estivesse na areia fofa. Apesar dos desafios, a estrada tem lindas castanheiras.



Em Alter, conhecemos um grupo de motociclistas de Recife que também estava fazendo a transamazônica. Nós ficamos em Alter para curtir a praia e esse grupo seguiu viagem ficando um dia à nossa frente. Fomos mantendo contato pelo whatsApp e eles nos diziam como a estrada estava.



Um fato engraçado é que, em Alter, eu comprei dois pratos de cerâmica que achei muito bonito. Normalmente eu compro imãs de geladeira, mas os pratos eram realmente lindos. A funcionária embrulhou muito bem os pratos, mas eu não sabia se eles sobreviveriam à transamazônica (que só estava começando!). Enfim….apenas no ES eu descobriria...risos...


Eu e Jabá saímos de Alter e fomos até Santo Antônio do Matupi, também conhecido como “180”, juntos. Sem dúvida, de Itaituba a Jacareacanga foi o pior trecho da transamazônica (somado ao trecho entre Medicilândia e Uruará). Muita trepidação, valas sem fim, ladeiras, poeira, cascalhos em uma estrada onde apenas um carro passa. Eu quase caí algumas vezes. Ao final do décimo dia de viagem, em Jacareacanga, eu senti o peso do off road… Naquele dia, eu gastei o dia inteiro para andar apenas 230 km.


Uma vez saí de Brasília 4h da manhã e fui parar em Petrópolis as 18h. Eu tinha percorrido quase 1.200 km. O cansaço dos 230 km que senti em Jacareacanga foi muito maior que os 1.200 km de Petrópolis.

Eu me perguntava “Por que eu estava fazendo aquilo comigo e com a moto?” E quando lembrava que eu não estava nem na metade da transamazônica, o desânimo era maior… Não pensei em desistir, mas queria entender o porquê de estar fazendo aquilo. Aí me perguntei “Por que uma pessoa faz o rally Dakar ou o rally dos Sertões?” e a resposta que encontrei foi a mesma: “para testar a sua própria dureza”. E é isso, testamos a nossa dureza quando nos desafiamos assim. Sofremos, superamos e vemos que somos muito mais fortes do que imaginávamos. De todas as viagens que fiz, essa sem dúvida foi a mais desafiadora. É preciso ter dureza, resistência, força. Além de difícil, são mais de 1.500 km de estrada de chão. Felizmente, depois de Jacareacanga, a estrada melhora muito e o trecho restante rende bem mais!



O trecho no Pará é desafiador, mas a floresta amazônica se mostra linda, exuberante e fica bem na beira da estrada. É incrível! Você, de fato, está no meio da selva! Claro que dá um pouco de medo. Em alguns trechos eu sentia um odor semelhante ao de mijo de gato. Eu imagino que algum felino demarcou o território por ali - uma onça talvez.





Sobre a autonomia da moto, o maior trecho sem postos de gasolina é de Itaituba-PA a Jacareacanga-PA. Esse trecho tem 400 km e muitas ladeiras. Se sua moto tem uma autonomia menor, será necessário levar um galão de gasolina. Ao longo desses 400 km existem locais que vendem gasolina, mas costuma ser mais caro que no posto. Na vila onde fica a “Churrascaria do Garimpeiro” eu vi um posto de gasolina, mas era domingo e ele estava fechado. Não sei se realmente funciona.


Eu e Jabá nos separamos logo depois do 180. Ele caiu com a moto e, felizmente, ele não se machucou, mas a moto não ligava mais. Conseguimos despachar a moto para Humaitá e eu segui viagem sozinha até Lábrea. Os primeiros kms sozinha foram de reflexão também. O Jabá é um motociclista muito experiente que já fez a transamazônica, a BR 319 e o Jalapão. Ainda sim, a transamazônica se impôs e não permitiu que ele terminasse a viagem dessa vez. Será que eu terminaria?



Lembra do grupo de motociclistas de Recife? Pois é, reencontrei eles um pouco antes de chegar em Lábrea. Eles se atrasaram, pois algumas motos furaram os pneus e eles precisaram trocar as câmaras. Esperei eles e fomos juntos até Lábrea.







Para fechar com chave de ouro a transamazônica pegamos uma chuva e um atoleiro pouco antes de Lábrea. Precisei tirar o paralama dianteiro da moto, pois a lama acumulou e travava a roda. A sensação de chegar ao final e tirar a foto na placa “Aqui termina a transamazônica” é indescritível.


A cidade de Lábrea é muito tranquila. Me deu vontade de ficar alguns dias para conhecer mais, mas eu precisava voltar. Um povo simples em uma cidade que está quase isolada no meio da Amazônia. Espero retornar algum dia.


No dia seguinte eu comecei a retornar para casa. Passei pela Chapada dos Guimarães e peguei temperaturas altas no MT. Próximo a Rondonópolis cheguei a pegar 34 graus de temperatura ambiente e que caia bruscamente para 21 graus ao entrar em uma nuvem de chuva. Minha garganta, que é mais sensível, sentiu essas diferenças de temperatura. Por isso a importância de beber bastante água, se alimentar e manter a imunidade em alta. Ficamos expostas a chuva, vento, poeira, altas e baixas temperaturas.



Para se ter uma ideia, no dia seguinte ao que cheguei em casa fui me pesar. Perdi mais de 2 kg em 18 dias de viagem..


E sobre aqueles pratos:

Sim, eles sobreviveram ... .risos…. São os troféus da viagem e ficam expostos na copa de casa!





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