Se você cansar, descansa. Mas não desiste.

Por Gabi Hoover


Escrevo da mesa da cozinha. É de manhã. Minhas únicas companhias são os cachorros, uma xícara de café, e o som confortante dos meus dedos no teclado do computador. A casa ainda dorme. Sozinha, volto para um tema que vem me perseguindo: qual a direção do próximo passo?


Já são dois anos de uma realidade que nunca imaginei em minha vida. Uma realidade que me coloca distante de tudo que me formou mulher - minha família, minhas amigas, minhas referências. Estou sem criatividade, sem vontade, sem parâmetros. Estou sem mim.


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Ligo a televisão pra saber as notícias da manhã: Russia, COVID, inflação, o grande irmão. Sinto meus medos de criança nos anos 1980, dessa vez, não no papel de filha, mas no papel de mãe.


Volto pra gente. Volto pro #ElasPilotam. Março é mês de celebrarmos as mulheres. Meu cérebro cansado diz: mas celebrar o quê? Tem tanta coisa que a gente ainda precisa arrumar, e cá estamos, falando de celebrar.


Pauso. Respiro. Tomo um gole do café.

Essa não é primeira vez que entro em crise sobre a celebração do Mês das Mulheres, e tenho a impressão que não será a última. Aliás, sinto que não devo ser a única a entrar em crise nessa época. Então resolvi aproveitar o dia de hoje, o silêncio da minha manhã, e o fato de que é assim que estou comemorando meu 44º aniversário, para compartilhar com vocês esse truque.

Quando cansar. Descanse. Mas não desista.

Nascer mulher não é fácil e não é pra qualquer pessoa. Esse é um gênero que exige força, não do tipo física, é força de vontade mesmo. Vontade de vencer, mesmo quando o mundo inteiro se posiciona de outra forma (inclusive outras de nós).


Cansa. Cansa repetir e explicar o tempo todo que “nariz de porco não é tomada”. E o lado bruto que se abriga em mim, pensa que, às vezes, é melhor deixar que tomem um choque mesmo pra aprender na prática. Só que esse não é o caminho.


Pensa comigo: a pessoa vai lá brincar com uma tomada, achando que é nariz de porco. Daí ela ou ele toma um choque. O choque não era do tipo pra aprender, foi violento e acabou deixando sequelas terríveis. Do meu lado, eu poderia ter explicado mais e insistido sobre a diferença da tomada e do nariz de porco e, assim, evitado uma calamidade. Porém, o ser humano será humano, e mesmo ciente da diferença, ainda tem aquele que vai lá tentar, pois talvez “dessa vez” pode ser diferente.


Se é na minha casa e meu filho não esta me ouvindo eu dou um xilique. Falo alto, bato o pé, e tiro os privilégios de video game dele por um ou dois dias (dependendo do caso). Por conta da nossa dinâmica de poder - eu sou a mãe e ele o filho -, ele então pára e vai ficar chateado no canto. Quando a coisa acalma, lá vou eu novamente, sentar ao lado dele, e explicar que tomada tem eletricidade, e que eletricidade mesmo sendo super conveniente em nossa vida, pode matar. Explico que ele é criança, que não entende isso muito bem, mas que precisa confiar quando a gente (eu ou o pai) diz, porque é para o bem dele.



Assim é com a luta Feminista. Cansa. Mas a gente não pode parar de falar, de lutar, de repetir, de explicar… porque em um descuido, podemos perder algo que é tão precioso como a vida em si: nossa LIBERDADE e os direitos que já conquistamos.


Empoderar


É um verbo transitivo direto e pronominal. E em seu sentido literal, significa: “Conceder ou conseguir poder; obter mais poder; tornar-se ainda mais poderosa: empoderou-se cheia de confiança e seguir em frente! Empoderar, no sentido figurado, significa:

“passar a ter domínio sobre sua própria vida; dar ou atribuir poder a: “ela luta para empoderar as minorias; empoderou-se de coragem e seguiu em frente.

Sim meninas, moças, mulheres, homens, rapazes e garotos. Não é fácil empoderar-se. Requer comprometimento, conhecimento, relacionamentos, informação, vontade, momentos de surto, de preguiça, de negação, e de aceitação. E só então, depois de passar por tudo isso… Respira e começa de novo. Tipo roda em movimento.


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Em tempos de transformação é difícil escolher uma batalha (ou causa): a crise climática, igualdade no trabalho, cultura do estupro, defesa da democracia, educação de qualidade, pobreza menstrual, a gasolina tá cara. Uffff... e ainda tem mais!!!


Honestamente, será que a gente precisa escolher quando, na realidade, todas essas coisas estão ligadas de certa forma?


Pra fechar, quero usar um trecho de um artigo da escritora Laurie Penny, para a revista Times, em Outubro de 2017. O artigo reverberava toda a atenção que o movimento #MeToo e as denúncias de assédios e abusos em grandes conglomerados de entretenimento Americanos vinham causando na época. No artigo, entitulado “Women will be the one’s to decide what happens next” (em tradução livre “As mulheres decidirão o que acontecerá”), a autora argumenta sobre a “fantástica coragem” das mulheres que vieram a público denunciar seus abusadores. Ela fala sobre o quanto essa coragem foi importante para que outras viessem contar suas histórias. Em um parágrafo do texto Penny escreve:

“Infelizmente isso não é história sendo re-escrita. Isso é história sendo contada, e lida em alto e bom som, para que toda a feiura, e o desconforto dessas histórias possam finalmente sair. Isso não é moda, ou uma reação exagerada. Isso é uma rebelião”.
E nós aqui?

Aqui nós seguimos. De cabeça erguida. Confiantes que nossos propósitos se alinham com os próximos passos dessa transformação. E é por isso que o #ElasPIlotam começa sua temporada 2022 com foco nos pilares: Educação. Inclusão. Comportamento. A gente quer continuar transformando o motociclismo no Brasil, mostrando todas suas cores, sotaques, sabores, e, principalmente, suas histórias.

Juntas somos fortes.
Unidas somos força.



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