Alynne Almeida: uma aventureira conta sua história pelo mundo

Por Alice Castro


Há viagens tão longas que se iniciam primeiramente dentro de nós. A história que vou contar começou como tantos outros sonhos, e a partir de um grande desejo de conhecer o mundo antes dos 30 anos.


Escrito em um papel, um sonho de menina ficou guardado e esquecido por anos, mas a sua redescoberta foi o bastante para que a nossa amiga motociclista desse o primeiro passo para viver uma aventura incrível e inspiradora. E será sobre tudo isso em nossa matéria, onde vamos conhecer as muitas faces da Alynne, da motociclista e atleta de competição de enduro/trilha, à viajante e Mestre Yogi .

“Meu nome é Alynne Almeida, e foi em um processo de viagem pelo mundo que eu descobri a minha verdadeira essência, meu verdadeiro eu. A Nynne sem rótulos de piloto de enduro, analista de sistema, filha ou mulher. Simplesmente Nynne”.

Antes de continuar, cabe-me dizer que conheci a Alynne há mais de 8 anos, quando começamos o nosso grupo no facebook “Mulheres Motociclistas e Apaixonadas por Motos”. Na época, ela era uma das poucas trilheiras que eu acompanhava nas redes sociais, mas já bastante conhecida no meio off-road, onde competia e disputava provas de enduro como uma das poucas meninas no meio.


E eu virei fã de carteirinha! Desde então, nunca deixei de acompanhá-la, tanto nas pistas como em suas viagens, as quais logo mais vamos contar. Mas antes, vamos saber como começou sua paixão pelas motos.



“Minha paixão por motos começou no off-road, mais especificamente no enduro de regularidade.”

Da fotografia esportiva para competição Cross


Alynne começou fotografando eventos off-road e a convivência com o esporte foi mais que um incentivo para passar para as pistas: “quando vi eu estava pilotando, competindo em enduros de regularidade”.

“Como todos sabemos, depois que somos picados por esse bichinho do motociclismo nunca mais abandonamos. Por mais que a moto não esteja hoje mais tão presente na minha vida, ela continua sendo grande parte do que sou.”

À época das competições, por conta da sua personalidade inquieta e curiosa, Alynne logo passou a atuar também na organização desses eventos, como no campeonato brasileiro de enduro “Enduro FIM – Federação Internacional de Motociclismo”, da qual foi da Diretoria em Curitiba - PR.


Esse campeonato iniciou o formato das provas off-road no Brasil nos anos 90, e segue o modelo das provas do Campeonato Europeu (FIM European Enduro Championship), posteriormente adotado como modelo mundial para as provas de enduro. Para mais informações, acesse: www.cbm.esp.br

“Participei de todas as provas que eu sempre sonhei com piloto, como o “Enduro dos Pampas” e o “Enduro da Independência”.

O Enduro dos Pampas é considerado um dos mais difíceis do Brasil e realizado na Região Sul, já o “Enduro da Independência” é uma prova realizada anualmente à época comemorativa da própria Independência do Brasil, dura 4 dias e é bastante típica e tradicional na região de Minas Gerais.

“Houve um ano em que praticamente todo final de semana eu estava competindo em off-road em algum lugar do Brasil. Foi incrível!”

Ainda, Alynne competiu nas maiores provas do Brasil, sendo uma mulher no meio dos homens, numa época que existiam poucas meninas. Ela cita algumas outras pilotas com as quais conviveu, como Sabrina Katana (regularidade), Moara Sacilotti (Rally dos Sertões) e a Michelle Furmann, a “Jeca Girl”, apelido por ser esposa do jornalista Jeca Joia da Revista Pro Moto.

“Aos poucos esse número foi aumentando e hoje eu tenho grandes amizades que off-road me presenteou. E foram as mesmas que me serviram de inspiração que se tornaram amigas. Entre elas, Roberta Lemos, a qual conheci no motocross no Rio de Janeiro. Foi a Roberta que me levou a competir na minha primeira prova Velocross”.

O Velocross é uma modalidade parecida com o motocross, porém sem os saltos em pista e realizada em circuito fechado.


A redescoberta de um sonho antigo

“Eu estava passando um momento delicado da minha vida pessoal e profissional e, revendo papéis antigos, achei uma carta que escrevi para mim mesma, quando era ainda muito nova. E lá estava um dos meus sonhos: conhecer o mundo. Eu pensei comigo, por que não?!”



Ela nos conta que em apenas dois meses, organizou a documentação e sua vida no Brasil:

“Saí do trabalho, vendi tudo que tinha, deixei meu gato com uma amiga e fui viajar o mundo.”

Eis aí uma garota decidia. Sim, às vezes é apenas uma frase escrita em papel que muda todo o destino de uma vida, não é mesmo? E ter atitude é tudo.

O planejamento da grande aventura


Antes de pegar a estrada, seu primeiro passo foi aprender inglês. “Sim, eu não falava nada de inglês antes da viagem”, e quando se sentiu mais segura, seu destino foi a Ásia: “a Tailândia era um sonho antigo meu”. De lá, conforme encontrava passagens, seguiu seu instinto.


Ficava em cada cidade ou país pelo tempo que seu coração pedia e, com isso, viveu intensamente experiências em mais de 30 países:


“No começo da viagem eu contava quantos países eu estava conhecendo; achava que era importante. Depois me desapeguei de números e me concentrei mais em conhecer a cultura de cada país que passei.”

“Carimbos no passaporte são fáceis, mas mergulhar numa cultura totalmente diferente sempre foi o meu intuito.”

Que demais, Alynne!



“A maior motivação para a minha viagem foi me conectar com o meu “eu” interior, mais até do que pra conhecer lugares. Sempre tive a paixão e a curiosidade de conhecer a Tailândia, tanto é que logo após eu aprender inglês, o meu primeiro destino foi a Tailândia. Mas diferentemente do que todo mundo faz, eu cheguei na Tailândia e fui direto morar em um Monastério, que na verdade era uma fazenda, cuidado por uma Pukini, uma monja budista. E foi aí, nesse lugar, que eu me aprofundei no budismo e na meditação. Foi muito intenso, porque eu nunca quis conhecer lugares para ter número de países, eu queria me conectar com o lugar, com a cultura. Queria aprender mais sobre os lugares que eu passava.”


Uma coisa leva à outra, e sua natureza curiosa lhe proporcionou aventuras típicas de uma mochileira viajante, como romances, festas, novas amizades e, lógico, viagens de moto. Pois sim, para nós que somos apaixonadas por motocicletas, para onde vamos sempre encontramos um jeito de pilotar. Ou será que são as motos que nos encontram?

Essas vivências intensas proporcionaram uma harmonia tão bacana entre os lados aventureiro e o espiritual de Alynne, que segundo ela “foi assim que encontrei meu verdadeiro equilíbrio”.



Pedi para ela nos contar como começaram as aventuras de moto em sua viagem, e eis um resumo do que ela realizou:


“Eu lembro que ao cruzar a fronteira da Tailândia para o Laos, eu sonhei que eu estava viajando de moto no Laos. Chegando lá, a primeira coisa que fiz foi pesquisar como eu poderia alugar ou comprar uma moto. E eu comprei uma scooter, e com ela viajei sozinha pelo Laos, cruzando a fronteira para o Vietnã e terminando no Camboja.”


“Eu a chamava de “Frank” porque ela era muito feia, então, o nome dela virou Frankenstein.” Mas teve outras curiosidades, pois Alynne conheceu a ilha de Bali inteira de moto, também em outra scooter. Ainda na Tailândia, chegou a fazer trilha de moto com os habitantes locais. E na Índia, viajou pelos Himalaias com uma Big Trail.


“Quando fui para o norte do Vietnã, comprei uma moto muito, mas muito velha, de fabricação chinesa marca “Hunda”, com a letra “U” mesmo. Ela vivia quebrando, e certa vez fiquei sem freio descendo uma montanha, quando fui ajudada por locais, mesmo sem conseguirmos nos comunicar direito. Foi um aprendizado ver como o mundo é bom, e que há pessoas de bom coração.”

O despertar da espiritualidade


“Eu sempre fui uma pessoa muito conectada com o meu ser. Mas na adolescência acabava deixando o meu lado explosivo falar mais alto. Foi quando descobri na yoga uma forma de acalmar um pouco essa explosão, assim como as crises de insônia dos meus 18 anos.”

Durante a viagem sua espiritualidade aflorou e, ao se sentir conectada com sua própria essência, foi em busca das várias ramificações de espiritualidade das religiões orientais. Alynne viveu com monges budistas na Tailândia, praticou Zen Budismo no Vietnã, visitou templos hindus Asharam na Índia e, então, formou-se como Mestre Yogi, também na Índia: “minha primeira formação foi em Yoga Tantra, na Tailândia. Depois, em Hatha e Ashtanga, em Rishkishe (cidade da indiana), e em Kundalini Yoga e meditação em Dharamsala, também na Índia.


Desde os 18 anos até o presente, são anos de dedicação e evolução espiritual: “nunca parei de praticar, e as breves pausas que fiz foram por lesões, mas com a ajuda da yoga, sempre me recuperei facilmente.”


“A formação como Yogi são em horas. Acumulei num total de 500 horas em Yoga e Meditação, com certificado internacional.”

Aprendizado e o tempo.


Nos cinco anos que esteve fora do Brasil, ela nos conta o que mudou:

“Eu me conectei, achei minha verdadeira essência. Amadureci de uma forma bem gradual, e o principal foi que eu aprendi a gostar da minha companhia, a aceitar como eu sou, com as minhas qualidades e defeitos, né?!”

Retorno ao Brasil


A volta da Alynne para o Brasil foi conturbada. Seus planos eram ficar mais seis meses viajando pela América Central, mas quando estava a caminho, descendo da Flórida, aconteceu a pandemia do COVID. Com passagem comprada para o Chile, saindo do Peru, viu-se impedida de cruzar as fronteiras: “não tinha voos, e eu estava numa cidade bem isolada, no meio das montanhas. E nessa mesma época, o meu pai sofreu um AVC". Dada a urgência, solicitou ajuda à Embaixada Brasileira, que por sua vez pediu auxílio à Embaixada Alemã, para levá-la à capital Lima, do Peru. Dois dias depois estava sendo repatriada.


Alynne já está no Brasil há mais de um ano, seu pai está bem de saúde e se recuperou. Perguntada se deseja continuar sua aventura pelo mundo, ela nos diz que “quero sempre viajar. Mas com a pandemia, descobri que gosto de ter uma certa rotina. Então continuo em busca desse equilíbrio entre viagens e o conforto de um lar.”


Inspiração


Perguntamos a Alynne o que ela diria às meninas que sentem a mesma vontade de ampliarem seus horizontes:

“Nesse momento da pandemia, o mundo está bem indeciso do que vai acontecer e como é que o futuro será. Eu acho que o ideal é se preparar financeiramente, aprender uma nova língua e planejar. Fazer uma rota, nem que seja uma ideia do que quer fazer. Porque o mundo é muito lindo! O mundo nos ensina, abre os nossos olhos ao vivenciarmos com a cultura local. Super recomendo que todas façam e se apaixonem pelo mundo.”

Para as garotas que desejam se aventurar no motociclismo, e até mesmo no motocross, nossa amiga diz que mudamos o nosso destino quando damos o primeiro passo. E a partir daí as oportunidades surgem!


E é verdade!


Pois, para pilotar, basta ligamos a chave e engatamos a primeira marcha. A atitude e a coragem de seguir adiante é o bastante para abrir novas portas, e faz com que tudo seja possível. Até mesmo conhecer o mundo.


“Eu acho que o que eu mais posso recomendar a cada um, cada uma, é “abra o seu coração”. Conecte-se com o seu ser, e sinta o que você quer pra sua vida, pro seu momento. Se a sua vontade é desbravar o mundo, siga o seu coração. Se sua vontade é pilotar moto, faça! E não se importe com o julgamento dos outros. Porque a gente nunca sabe o que vai ser amanhã!”
Gostaria de agradecer de coração pelo espaço cedido pra contar um pouco sobre a minha história de autodescoberta. E me coloco à disposição para todos que tiverem vontade de desbravar o novo. Seja pilotar moto, viajar o mundo, praticar yoga ou meditação.

Alynne não se despede de nós com apenas essa matéria para o Portal #ElasPilotam, pois desejamos que em breve possamos conhecer mais das suas aventuras! E, por que não, sua companhia em alguma nova trilha de moto! Porque o mundo é imenso, e conhecemos muito pouco dele, não é?!


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