Plantei a lua na estrada

Por Amably Monari


Por algum tempo me questionava que (tipo de) mulher sou eu que não dou conta de fazer viver uma planta? É isso, não me julguem. É muito difícil fazer uma planta permanecer viva. O que me leva a admirar as pessoas, que criam seres humanos.


Sempre direcionei todo meu amor ao cuidado, dentro da minha profissão. Ali sim, eu sei o que fazer. Plantamos juntes as sementes de autoconhecimento e vamos compreendendo como e quando regar.


Falando em plantar, você já ouviu sobre #plantaralua?


A artista visual Gio Simões, diz que

"Plantar a Lua é um ato revolucionário de amo próprio e cura!"

E eu fui em busca de compreender o que seria "plantar a lua".



e você deve estar se perguntando: Mas Amably, o que plantar a lua tem relação com motociclismo?

Eu vou te explicar. Vem comigo nessa estrada. Mas antes, gostaria de contextualizar como cheguei a lua.

Ano passado fiz os 82 dias sem casa, rumo a Rosário-Argentina com Freeda, minha moto (H-D Sportster Iron883). Percorri caminhos incríveis, principalmente dentro de mim, refazendo percursos de cura, perdão, solidão, e conexões insanas com o mundo duas rodas. E enfim, a solitude. Eu sempre falo da viagem, mas tem muita coisa que aconteceu nesse tempo. E essa experiência que estou relatando, por exemplo, até então, não havia confidenciado a ninguém.


Passei boa parte da viagem, menstruada.

Tudo mudando na minha vida. Já no sul do Brasil, estava lidando com todas as emoções e sensações que uma viagem demanda: o frio monstruoso da região, sem equipamentos específicos, sem grana (estava no perrengue de viver "o dia" e chegar onde desse, mas meu não planejamento furou bem aqui rs), tudo isso e ainda ter que lidar com as oscilações hormonais e o tal do sangue que sentia meu corpo expelir como se fosse parte do processo de me deixar pelo caminho.

Romantizei um pouco, bem pouco, mas era isso que meu corpo estava entoando em uma sintonia que me fazia cada vez mais me esquivar, estava me levando ao ódio.


Passar por essa transformação de vida e literalmente deixar meu corpo sangrar.

Nessas alturas, estava entrando no trecho da Rota Romântica. E resolvi seguir por lá, sem mapa, sem sinal de gps, bem estilo comedia romântica #sqn. Em uma encruzilhada, me dei um veredito: "LET IT GO"! (deixe que vá)

Naquele momento estava também deixando de lutar contra meu corpo, que com o vibrar de Freeda estremecia em cólica e frio. Era bem cena de filme americano: o choro dentro do capacete embaçado, margeando cada curva como um túnel verde e cinzendo, encharcada de água e sangue que já nem sabia mais diferenciar.