#representação: a diferença das mulheres no poder

Por Alice Castro

Fotos do arquivo pessoal


Mulheres que fazem diferença, não o fazem apenas em uma única área. Elas são tão determinadas e possuem tantas facetas, que se tornam múltiplas, ou seja, várias mulheres em uma só personalidade. E este é o caso da nossa amiga motociclista Juliana Braga: ativista da causa animal, campeã nacional e internacional em Karatê e, agora, iniciante em uma área em que poucas de nós se atrevem a participar, que é a política.


Sim, isso mesmo, você leu certo. A Juliana está iniciando sua carreira política e, nesta matéria, ela vai nos mostrar o quão pouco nós, mulheres, estamos representando a população feminina no Brasil, por não assumirmos cargos políticos que poderiam defender mais ativamente os nossos interesses e peculiaridades.


Pois é fato que mulheres são a minoria eleita, apesar de sermos praticamente a metade de toda a população brasileira. Com isso tencionamos inspirar e incentivar outras garotas a se aventurarem nesta área tão importante (e por que não dizer necessária?) que comanda e norteia as diretrizes do futuro do nosso País.


Vamos então conhecê-la?



Goianiense, Juliana Braga recém completou 50 anos, e continua com a mesma garra e alegria de quando, ainda menina, iniciou sua carreira como atleta profissional no Karatê. Formada em Educação Física, foi proprietária de academia por mais de 20 anos, e atualmente exerce cargo diretivo no grupo empresarial familiar, em Goiânia GO.


Motivada a romper preconceitos e barreiras impostas às mulheres, e superando eventuais decepções, ela conquistou cargos representativos em seu meio como atleta.



Juliana tornou-se Mestre nesse esporte, e a primeira mulher Presidente da Federação Goiana de Karatê, sendo a única até o presente. Ela se diz realizada no esporte

“levei o Estado de Goiás para um lugar mais alto no pódio em várias competições nacionais e internacionais, e na minha academia, formei campeões mundiais. Com isso, ensinei muitas mulheres a conquistarem espaço no esporte.”

Juliana tem dois filhos, Alessandra e Luis Gustavo, ambos faixa preta em Karatê e campeões mundiais no esporte. Alessandra é advogada e Luis Gustavo, engenheiro da computação.


“As lutas forjaram o meu caráter, e fizeram com que eu fosse essa pessoa que sou hoje: guerreira e batalhadora. Eu não aceito “não” como resposta, não aceito que uma mulher não tenha seu próprio espaço. Eu sempre briguei para que as mulheres tivessem as mesmas premiações, os mesmos lugares e a mesma valorização masculina no esporte em geral. E isso foi muito importante para que o karatê especificamente fosse reconhecido a nível nacional. Hoje eu assisto com alegria as categorias femininas serem disputadas com a mesma valorização das premiações masculinas, e eu sei que fiz parte dessa conquista.”

E assim foi até que, por insistências daqueles que conheciam a sua determinação na busca dos direitos femininos, das crianças e dos animais, sugeriram que se candidatasse a um cargo político e, assim, realizasse ações mais amplas e eficazes. Através de convites e propostas de apoio, em 2020 ela se candidatou a vereadora por Goiânia GO, sua cidade natal.


“Nossa cidade tem 52% do seu eleitorado composto por mulheres, mas numa Câmara com 35 cargos de vereadores, a média de mulheres eleitas era de duas a cada quatro anos. E isso me motivou a saber mais.” “Eu queria muito entender o porquê de poucas mulheres buscarem uma candidatura política. E mais ainda, o porquê de mulheres não votarem em mulheres.”

Feminista, Juliana buscou os motivos pelos quais outras mulheres, notadamente as que lutam por igualdade, seguiam elegendo homens (que legislam em interesse masculino) mas esperando resultados diferentes.


“Como esperar leis que favoreçam as mulheres, mas elegendo homens? Isso motivou a me candidatar.” Segundo pesquisa efetuada por ela, em 2020 as cotas estabelecidas para que mulheres fizessem parte das chapas para vereador subiu para 30% das candidaturas. Porém, esse incentivo não fez com que mais mulheres se candidatassem. “Por se tratar de lei, os partidos políticos buscaram candidatas, mas não por acreditarem na força feminina”, argumenta.


Ainda que, de forma geral, nas últimas eleições tenha ocorrido aumento de 7% no número de mulheres que almejaram o cargo de vereadoras no Brasil. Esse aumento pode ter ocorrido em razão das cotas; porém, o número de mulheres eleitas continuou muito baixo, o que ainda significa baixa representatividade feminina na Câmara e em outros cargos políticos.

Quando decidi que sairia para vereadora, percebi que entendia muito pouco de política. O que eu sabia era o que via na TV, e imagino que essa seja a realidade da maioria das mulheres. Então, eu fui atrás!

Juliana fez curso de ciências políticas, conversou com vereadores, deputados e outros candidatos. Participei de um programa que se chama “Goianas na Urna”, que prepara mulheres para candidaturas políticas. Pesquisas efetuadas mostraram a ela que as mulheres brasileiras ocupam um espaço muito pequeno na sociedade e, na busca por seus direitos políticos, a maioria das mulheres votam baseadas na opinião de seus pais ou seus maridos, entende Juliana. Dados estatísticos da Justiça Eleitoral mostram que 52% do eleitorado brasileiro é formado por mulheres, somando mais de 77 milhões. Desse número, apenas 9.200 mulheres concorreram a um cargo eletivo nas eleições de 2020. O que isso quer dizer?

“Os homens não acreditam na capacidade feminina, ou nem elas mesmas acreditam em si, ou em outras mulheres. Porque, na verdade, a maioria nem sequer vota em mulheres, e os números mostram isso!”

“Na minha opinião, pelo que eu vivi durante os 45 dias de campanha, os partidos políticos nacionais buscam por candidatas mulheres; porém, apenas para que suas chapas sejam viáveis diante da Justiça Eleitoral. Uma vez compostas as chapas de acordo com a Lei, os partidos não investem em suas candidaturas, e não ensinam nada sobre política. Os partidos não motivam essas mulheres a serem igualmente competitivas nas urnas, e não disponibilizam recursos e as orientações necessárias para uma candidatura de igual para igual.”


“A maioria das mulheres que conheci na política, estavam se candidatando pela primeira vez. Assim como eu. E a maioria dos homens já estavam lá há mais de 10 mandados, então isso torna a luta pelos votos muito incompatível e injusta. Se os partidos realmente quisessem eleger mais mulheres, precisariam investir nessas candidatas, o que não acontece. Elas servem apenas para estatísticas e números.”

Juliana mostra-nos como o preconceito é forte nesse segmento. Inclusive entre nós mesmas.

“Quando eu escuto mulheres jovens falarem coisas do tipo: “política não é coisa pra mulher”, “eu não entendo nada de política” ou “eu não gosto de política”, me dá uma profunda tristeza. Porque a política é que rege o nosso País; é a força motriz que elabora as nossas leis, e que deveria defender os nossos interesses na sociedade. Enquanto as mulheres não “gostarem” de política, elas serão governadas por quem gosta: os homens!”

Verdade, Juliana.


Enquanto eu, Alice, escrevo essa matéria, penso no quanto somos ausentes e omissas nesse campo. Nós, mulheres, nos deixamos governar e depois reclamamos por não sermos ouvidas. E acabamos brigando por cotas, enquanto deveríamos colaborar ativamente na formulação e promulgação de Leis mais justas. Não é?! Temos que assumir o protagonismo em todas as áreas. Começando em nossas vidas.


“Então, na minha opinião, não adianta aumentar os movimentos feministas, ou reclamar que o salário das mulheres é menor, ou que as leis do estupro e da violência doméstica não são eficazes, se nós, mulheres, não aumentarmos nossa representatividade nas câmaras e assembleias governamentais. Para que não sejamos mandadas e ignoradas em nossas necessidades, precisamos de mandatos femininos!”

Veja também: Uma breve história do voto feminino


Perguntei para a Juliana que conselhos ela daria para as futuras candidatas que certamente esta matéria vai inspirar. Garotas que ainda não despertaram para a carreira política, mas que, como ela, desejam fazer a diferença e alcançar gerações de mulheres, melhorando suas vidas de forma efetiva e duradoura. Veja o que ela nos diz:


“Procurem estudar, conhecer mais, entender o processo eleitoral, e se candidatem! Dediquem-se a mudar a vida das pessoas para melhor, principalmente a vida das mulheres!”
“Nós, mulheres, geramos vidas, dirigimos nossas casas, famílias. Educamos nossos filhos e, ainda assim, sentimo-nos “incapazes” de governar, de legislar...? Isso são as famosas crenças limitantes que nos enfiaram na cabeça. Vamos à luta, mulheres! Pois antes de querer que acreditem em nós, é preciso que cada uma acredite em si mesma!”

Causas Sociais

“O que me motivou a entrar para política foram as causas nas quais acredito, notadamente as sociais. Eu sempre resgatei animais abandonados, e por isso apoio e ajudo os abrigos que os acolhem. Minha postura é divulgar a conscientização dos direitos e pelo respeito aos animais.”


Além dessa causa, ela defende os direitos das crianças e vem batalhando junto à Secretaria da Mulher de seu estado, pelas mulheres em situação de violência doméstica. Participando de ações não só no Estado de Goiás, acredita que iniciativas coletivas independentes podem gerar frutos duradouros, inclusive em outros países: “quando estive na África, num país que se chama Zâmbia, trabalhei com crianças de um orfanato onde desenvolvemos o esporte e o gosto pela vida saudável. Foi incrível.”


No âmbito do esporte, acredita que o incentivo governamental à prática, aliado a um plano de promoção pela acessibilidade à população em geral, convergem à uma sociedade mais saudável, com reflexos positivos na redução da violência juvenil e na criminalidade. Essas foram as minhas bandeiras durante a minha campanha.”


Para encerrar nosso bate-papo, veja as mensagens de incentivo que a Juliana deixa para as meninas que acompanham o nosso Portal #ElasPilotam:

“Espero que a minha história sirva de motivação e inspiração para todas as mulheres que buscam espaço no esporte, no motociclismo e na política. Precisamos entender que se somos responsáveis pelas nossas vidas, pelas nossas famílias, pelas nossas carreiras, nós podemos ser o que a gente quiser. Não permita que crenças limitantes te impeçam de conquistar seus sonhos. Que as mulheres compreendam a enorme capacidade temos”

Para quem desejar se conectar com a Juliana Braga, aqui estão os links:

Instagram: @julianabragasensei

Facebook: Juliana Braga

Email: julianakarate.jb@gmail.com



Nota da Redação:


O movimento #ElasPilotam não possui (e não possuirá) filiação partidária, mas acreditamos na força e na importância da política para a legitimidade de uma sociedade democrática. Somos pela causa #feminista e #feminina. Acreditamos que para uma sociedade igualitária, precisamos de um governo que reflita a realidade na qual vivemos, e no qual tenhamos representação. Ou seja: se queremos um governo que entende e reflete também as necessidades das mulheres, precisamos de mais mulheres no governo.


Leia também: Uma breve história do foto feminino


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