Comboio de moto: como rodar em grupo com segurança


Por Alice Castro


Pilotar é uma delícia. Fato. E quando vamos em bonde (nome dado aos comboios de moto), com amigas e amigos de moto, fica ainda melhor! Pois a alegria, quando compartilhada, multiplica! Mas é seguro pilotar com outras motos, inclusive com pessoas que vezes você nunca pilotou junto? E se nesse passeio forem também dezenas de outras motos? Umas próximas às outras, formando um bonde que atravessará ruas movimentadas e grandes avenidas da sua cidade?


Sem dúvida é algo lindo de se ver, e até para quem não é motociclista (ainda), se admira. Mas a segurança sempre deve ser uma prioridade quando se anda de moto. E em bondes, tem que ser a necessidade número 1!


Pensando nisso, nosso bate papo deste mês será com a nossa amiga motociclista Yara Athayde. Com vários treinamentos e viagens de motos exercendo a função de RC - Road Captain, Yara coleciona experiências e histórias na condução de grandes bondes de motos, notadamente em vias urbanas. Nesta matéria vamos aprender com a Yara algumas dicas para que você e suas amigas possam realizar passeios em grupos com mais segurança. Mas antes, vamos conhecê-la!?


“Meu nome é Yara Athayde, tenho 44 anos e sou Designer. Minha história com as motos começou quando criança, andando na garupa ou no tanque de meus tios. Sempre gostei do vento no rosto e do frio que ir no tanque me trazia… adorava a sensação (e depois o sentimento) de liberdade que a moto sempre trouxe. Mas foi depois dos 35 anos que finalmente tirei minha carteira de moto, e apenas com a mudança para Brasília que tive coragem de comprar minha primeira moto, uma Harley Fat Boy.”

Trabalhando no Serpro, empresa de Tecnologia do Governo, Yara lidera times de desenvolvimento de soluções:


“Acho que esta minha perspectiva de participação, pertencimento e liderança fez com que me envolvesse logo com as Ladies of Harley e através do grupo com o HOG (Harley Owners Group), inicialmente, e depois com as LOR (Ladies of the Road). Nestes grupos participei de vários treinamentos, teóricos e práticos de pilotagem. Condução de comboios, pilotagem em alta e baixa velocidade.”


Sempre interessada pela condução dos grupos, e por diversas vezes assumindo a posição de RC – Road Captain, Yara é uma das responsáveis pelo planejamento de atividades que envolve condução em grupo das Ladies of the Road de Brasília DF, assim como dos eventos realizados pelas Mulheres Motociclistas e Apaixonadas por Motos, movimento que desde 2011 incentiva o motociclismo feminino em todo o Brasil, entre eles o passeio motociclístico anual IFRD - International Female Ride Day, realizado na Capital do País desde 2012.


A respeito, a participação dos passeios do IFRD (em Brasília DF) tem excedido a mais de 100 motos nos últimos anos, com o destaque de o comboio ser formado exclusivamente por mulheres motociclistas de todas as cilindradas, marcas e estilos.



“Para mim a condução de um comboio é como a gestão de um projeto. Na verdade, conduzir comboios também me ensina sobre comportamento humano, o que me leva a me aprimorar como gestora.”


Vejamos algumas competências recomendadas pela Yara para aperfeiçoarmos a organização de um bonde de motos:

  • planejamento;

  • paciência;

  • atenção;

  • resiliência;

  • sororidade / empatia;

  • firmeza / assertividade / liderança;

  • respeito.


Dicas iniciais para quem vai passear em grupo

Para a nossa amiga RC, duas dicas são fundamentais:

  1. você é a maior responsável pela sua segurança. Não a delegue para ninguém. Para andar em grupo é necessário confiança, o que leva ao segundo ponto;

  2. cada grupo possui uma cultura que leva a suas convicções. A forma de andar em grupo tem relação direta com isso. Conheça quais são as definições de comboio e avalie a compatibilidade da sua condução com a deste grupo. Ou, se for o caso, negocie regras específicas para o passeio. Combinado não sai caro. 😉

Mas antes de sair de casa, cabe reiterar a necessidade de se fazer o checklist para andar de moto, com destaque para:


Leia sobre: Checklist antes de pegar estrada.




  • documentação do piloto e da moto “em dia”, incluindo a sua revisão e inspeção visual prévia;

  • contato de emergência acessível, bem como anotações sobre alergias e medicações que podem ou não ser ministradas;

  • equipamento de segurança em bom estado e com uso adequado ao trajeto proposto;

  • calibragem dos pneus e abastecimento prévio ao início do evento.

“Como diz a máxima, a gente se veste para cair e pilota para não cair”, lembra a nossa RC.

Para a condução de motocicletas em grupo cabe, ainda, outros cuidados, pois o assunto demanda mais trabalho que simplesmente juntar um monte de amigos para rodar. “É claro que em 99% das vezes dará tudo certo. Mas eu sou do time que tenta mitigar aquele 1%”, lembra a nossa gestora de projetos e Road Captain. Vamos começar pelos 99%.


Formando comboios - deslocamento

Comboios de moto organizados tradicionalmente se deslocam em coluna por dois alternado -- alguns também chamam de “passos na areia”, e em inglês o termo usado é stagger. Ou seja, duas colunas com posições intercaladas. Duas motos não andam em linha, lado a lado, por questão de segurança (Veja matéria com a nossa Policial Rodoviária Federal Kátia Pereira). É necessário espaço para reação, desviar de buracos e outros imprevistos, lembram?!

“Outro aspecto é o distanciamento entre motos. Normalmente mantemos entre 2 a 3 segundos entre a moto da frente (em coluna por dois) e eu recomendo pelo menos 3 segundos nas situações em que estamos em coluna única.”

Comunicação por sinais

A sinalização entre motociclistas é uma convenção cultural. É uma linguagem em que comunidades criam a sua, ou mesmo optam por não usar. Mas é muito importante conhecer a forma de comunicação do seu grupo. Grupos e Clubes de moto possuem regras muito diferentes, mas em geral adotam os sinais praticados pelos policiais rodoviários da PRF - Polícia Rodoviária Federal.


Liderança dos comboios

Existem muitas diferenças também sobre a posição das motos e a forma de condução de comboios. Alguns clubes mais tradicionais se organizam por hierarquia, onde à frente segue o Capitão de Estrada, e os não escudados seguem ao final do comboio. À similaridade, outros grupos alocam os menos experientes nos últimos lugares, de forma a não pôr em risco a pilotagem dos demais.


O HOG – Harley Owner Group, formado por proprietários de motocicletas da marca Harley-Davidson, normalmente possuem funções específicas para pilotagem em bondes: os pilotos mais experientes, e devidamente treinados para a função, assumem as posições de Road Captain, ou RC. Esses são os responsáveis pela condução e segurança do bonde, sendo que o RC que assume a posição final do grupo é denominado também de Ferrolho ou Cerra Fila, pois fecha o comboio. Cabe destacar que é recomendado que o Ferrolho possua moto veloz, para o caso de necessidade de ultrapassagens rápidas e troca de posição com o RC à frente do bonde.


Algumas vezes, as posições de RC são duplicadas (oficial e auxiliar) e, ainda, pode ter um membro de condução vá no meio do comboio, se este for maior. Existem também funções acessórias, como a de batedor, que rodam fora do comboio e lançam-se à frente de todo o comboio para indicar ao RC líder eventuais situações imprevistas, facilitando passagem por obstáculos, liberando pedágios (onde isso é possível) etc. A este também caberá a missão de ficar para trás, recuperando pessoas perdidas, ou que tiveram problemas com suas motos (estas atividades também podem ser executadas pelo Ferrolho).


Tamanho dos comboios


O tamanho de um comboio pode variar muito e depende do objetivo do passeio. Mas quanto mais motos, maior deve ser a segurança, notadamente do RC que conduzirá todo o grupo.


“Já conduzi grupos com mais de 100 motos. Uma loucura linda! Mas pessoalmente gosto de comboios de até 10 motos. Faz muita diferença quando você consegue ver todo mundo”, empolga-se Yara.

O ideal para o planejamento de qualquer bonde é o conhecimento prévio de sua formação. Recomenda-se utilização de canais (inscrição) para quantificação de motos habilitadas, com especificação e identificação de cada máquina, respectiva cilindrada, autonomia e experiência dos pilotos (importantíssimo). Quando o grupo é muito grande, recomenda-se ainda dividi-lo em subgrupos, desde que observada a quantidade de pilotos RC disponíveis para apoio na condução.

Em Brasília costumamos dividir os grupos em blocos de até 20 motos. E para a comunicação entre os RC, um fator que pode ajudar significativamente é o uso de comunicadores”, diz Yara.

Com treinamento, todos os motociclistas podem cumprir todas essas funções, e o revezamento inclusive ajuda na evolução do grupo. Mas existem algumas necessidades básicas, segundo nossa RC: “A pessoa precisa dominar muito bem a sua moto e ter capacidade de visualizar situações ao redor e tomar decisões rápidas. É muito importante que as pessoas que estejam conduzindo o comboio conheçam o caminho, seja por já tê-lo feito, ou por tê-lo estudado. O que leva a demandar que estas pessoas atuem em um planejamento do percurso. Sou da turma de pessoas que entende que planejamento é liberdade, e não o contrário”.


Planejamento do passeio em vias urbanas

Um outro ponto importante é o impacto que o comboio pode causar nas vias por onde vai se deslocar. Assim, sempre que possível é necessário notificar as autoridades locais. Aliás, as regras de cada região costumam variar. Se o comboio for grande e o evento for organizado, é importante saber sobre necessidades de pagamento de taxas e, em alguns casos, a negociação de apoio de policiais batedores que atendem a sua região. Em caso de deslocamento em estradas, importante informar também a PRF e, de acordo com o possível, avaliar negociações prévias para passagem por pedágios.



Posicionamento dos motociclistas no bonde

Ainda sobre a formação do comboio, é importante posicionar os pilotos de forma a minimizar os riscos.

“Pessoalmente eu gosto que pilotos iniciantes, ou os que eu não conheço a forma de pilotagem, ou ainda que possuam moto de menor cilindrada, fiquem na frente. Pois esses irão ditar a velocidade do g¨rupo, e estarão sob os cuidados do RC líder.”

Outra possibilidade é que os menos experientes fiquem ao final do comboio, no último subgrupo. Lembrando que há o risco de o comboio vir a se separar em função da inexperiência ou incapacidade das motos em acompanhar o grupo principal. Por isso, cabe ressaltar que o fator segurança é imprescindível, e as melhores decisões podem ser discutidas e adotadas na etapa do planejamento e organização do passeio.


E quando as motos são de estilos diferentes? Segundo a Yara, não há impeditivos. “É só, mais uma vez, uma questão de combinar como devem se comportar.”


Por último, vejam as dicas finais que nossa RC Yara Athayde nos recomenda:

  • pilotagem é um misto de posturas defensivas e ofensivas. Muitas vezes a resposta não é frear, pode ser desviar ou acelerar. O treino pode nos condicionar às melhores reações rápidas;

  • você pode não ter duas chances de cometer um erro. Pilotagem demanda foco 100%. Se você não está bem, não saia de moto para melhorar. Já me envolvi em leves acidentes (felizmente) por ter desviado minha atenção no próprio trânsito. Já escapei de grandes acidentes por estar 100% focada;

  • tenha certeza do que está fazendo.


“Andar de moto implica em assumir riscos, pois há situações que não podemos controlar. Andar de moto é fácil. Andar em motos pesadas é tão fácil quanto, mas desde que tudo esteja normal. E as situações não normais ensinam bem mais. Espero ter contribuído com um pouco da minha experiência.”

Quem desejar maiores informações, pode contatar nossa amiga motociclista Yara Athayde pelas redes sociais:

Instagram: @yathayde

Facebook: https://www.facebook.com/yathayde


Fotografias:

Regina Cabral Trindade

Katia Monteiro

Leila Barros

Adriano Machado

Quadra Fotografia

Godofredo Costa


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